MÓDULO 2 | TEMA 2.1 | CLARIFICAÇÃO DE CONCEITOS BASILARES: CONSTRUTOS, VARIÁVIES E DEFINIÇÕES OPERACIONAIS 

 

 

OS CONSTRUTOS


 
1. Os construtos são ideias ou conceitos alcançados (construídos) por um processo racional de inferências, baseado em observações empíricas, assim como em outros construtos.  Por esta razão, são do domínio abstrato, não diretamente observáveis e não suscetíveis de serem medidos. Contudo, vêm a ser usados, analogicamente, como se existissem de facto, e como se tivessem uma relação com os acontecimentos observáveis.

2. A sua elaboração não dispensa a observação, que consiste no processo empírico, em que usamos os nossos sentidos, ou prolongamentos dos mesmos, para reconhecermos e notarmos acontecimentos factuais (factos). Assim, os factos dizem respeito aos acontecimentos que podem ser direta e empiricamente observados. 

3. Cada domínio científico tem os seus “factos particulares”, em torno dos quais se elaboram construtos (conceitos, princípios, modelos e teorias) que os procuram explicar e compreender.

4. Para essa elaboração a inferência é fundamental, sendo o processo pelo qual, a partir de observações empíricas, se chega ao plano mais abstrato dos construtos, ou seja, acontecimentos inferidos.
 
 
Concretizando:
A gravidade, a eletricidade, a memória, a emoção, a motivação, a inteligência, as atitudes, os valores, a criatividade, o pensamento, a percepção, etc., são acontecimentos inferidos, isto é, são ideias racionais que foram construídas através de processos de inferência baseados em observações sistemáticas.
 
 

  

 

AS VARIÁVEIS


 
1. O conceito de variável significa precisamente o que se opõe à noção de constante. As características das pessoas, os fenómenos observados ou os acontecimentos factuais são realidades variáveis e é por essa razão que os estudamos (variáveis intrasujeito, intersujeitos, intrasistema, intersistemas). Se assumirmos que o objetivo da ciência é construir teorias que nos permitam interpretar, explicar e prever os fenómenos, é importante ter presente a ideia de que estas consistem, em termos simples, na exposição sistemática das relações entre um conjunto de variáveis. Assim, uma variável é qualquer característica, propriedade ou atributo suscetível de ser observado, que se pode expressar através de diferentes valores ou categorias. 
 
2. As variáveis podem ser de diferentes tipos e classificadas segundo princípios organizadores distintos. Por exemplo, ao definirmos o plano de investigação queremos saber (numa versão muito simplificada) quais são as variáveis dependente/s, independentes, parasita (ou confundentes) e de controlo.
 
 
 

CLASSIFICAÇÃO DAS VARIÁVEIS

(Clique em cada uma das variáveis para desenvolver a informação)


tabela
  • É a variável que representa o fenómeno que queremos estudar, explicar, compreender. Como tal, é a variável efeito, a qual resulta da ação de outra/s, ou seja, é aquela sobre a qual se reflete o efeito da/s variável/eis independente/s.

  • É a variável que produz um determinado efeito na VD e que o investigador manipula (ou que intencionalmente modifica para determinar o seu efeito no fenómeno em estudo), no caso dos planos experimentais. No caso dos planos não experimentais é frequentemente designada por variável preditora, uma vez que não é manipulada ou modificada pelo investigador, mas apenas observada e medida.

  • É uma variável com efeitos potenciais na VD, que o investigador não é capaz de controlar, induzindo em erro ou distorcendo  os efeitos verificados na VD e atribuídos à VI ou VIs em estudo.

  • É uma variável que o investigador deliberadamente procura neutralizar no decurso da experiência ou da investigação, por não ter interesse em examiná-la, e para não ter um efeito desconhecido na VD. Para isso, pode eliminá-la, uniformizá-la nos diferentes grupos ou condições, ou recorrer a processos aleatórios.

 

Concretizando:
Numa investigação em que os alunos de uma escola são submetidos a um programa de intervenção, cujo objetivo é aumentar a sua criatividade, a:
  • VI: é o programa de intervenção versus outro programa
  • VD: é a criatividade
  • Variáveis parasita: atividades realizadas nos tempos livres; tipos de cursos que os alunos frequentam; interesses e características de personalidade dos alunos, etc.
  • Variáveis de controlo: ano de escolaridade, idade, mesmo curso, turmas de idêntica dimensão, mesmo nível socioeconómico, interesses semelhantes, ocupação de tempos livres idêntica, etc.

 

Se estivermos implicados na análise estatística dos dados já é fundamental saber qual é o nível de medida para o qual as variáveis se prestam, pelo que surge a necessidade de uma classificação adicional, podendo ser, neste caso, nominais, ordinais, intervalares e de razão ou proporcionais.

Podemos assim, para um sujeito/item/unidade observar qualidades ou medir quantidades. Ao observar os valores que essas características assumem (seja na amostra, seja em toda a população), definem-se em geral variáveis, uma para cada característica.
Ex: Caraterísticas como o Sexo, a Idade, o Peso, a Avaliação numa UC, as Habilitações de um indivíduo, podem ser definidas como variáveis.

Uma variável aleatória (v.a.) associa um número real a cada resultado de uma experiência aleatória. As variáveis aleatórias representam-se habitualmente por letras maiúsculas.

Perante uma amostra de dimensão n, e representando a variável de interesse pela letra maiúscula X, o conjunto (x1, x2, ..., xn) representa n realizações/valores observados da variável X.

 

Por exemplo:

 

Repare que nem todas as variáveis apresentadas são do mesmo tipo. Podemos assim definir dois tipos de variáveis: Qualitativas ou Categóricas e Quantitativas.

 

 

Variáveis qualitativas ou categóricas

Quando se referem a características não quantificáveis, assumindo um conjunto de categorias.

Devemos ter em conta:

 

 

Variáveis quantitativas

Quando assumem um conjunto de valores numéricos que se apresentam numa escala de intensidades ou valores.

Devemos ter em conta:

 

 

Escalas de medição

 

Variáveis qualitativas


Variáveis quantitativas

Nota: As escalas de razão ou proporção são semelhantes às escalas de intervalo em termos dos valores/números que as representam. A única diferença é que em escalas de razão o zero (0) significa a ausência de qualquer que seja a variável que se está a medir. Este tipo de escala é mais comum nas áreas das ciências físicas, onde podemos ter realmente a ausência de peso, tempo, altura, pressão da água, ou onde quer que o zero não seja um valor artificialmente criado, como por exemplo o custo ou lucro de algo. Se considerarmos por exemplo a temperatura, estamos perante uma escala intervalar. Zero graus Celsius não representa obviamente ausência de temperatura.

 

Como descrever uma variável?

A forma como a distribuição de uma variável é representada depende naturalmente do tipo de variáveis com que estamos a trabalhar. Contudo, quando conhecida, podemos saber tudo sobre o comportamento dessa variável, como por exemplo calcular a probabilidade de um dado acontecimento ocorrer.

No Módulo 6 iremos perceber o quão importante é este conceito e o porquê da distribuição normal ser tão popular.


 

AS DEFINIÇÕES OPERACIONAIS


   
 
Concretizando:
Assim, as atitudes dos alunos para com a escola podem ser operacionalizadas/medidas através de um questionário (que avalie, por exemplo, a recetividade e aceitação das atividades escolares, o cumprimentos de regras, o envolvimento nos trabalhos escolares, etc., com base em autodescrições); a literacia pode ser operacionalizada pela Escala Internacional de Literacia para Adultos (IALS); o entusiasmo do professor pode ser operacionalizado através de uma grelha de observação estruturada (onde se registe a intensidade do discurso verbal, dos gestos, dos movimentos da vista, do corpo, das expressões faciais, etc.); a assertividade pode ser operacionalizada/manipulada através de um programa de treino com respostas modelo a usar em situações difíceis e com prática simulada dessas respostas.